sexta-feira, 16 de maio de 2014


“Meu encanto precisa da saudade...”
“Era uma vez uma menina que amava um pássaro encantado
 que sempre a visitava e lhe contava estórias, o que a fazia imensamente feliz.
 Mas chegava um momento que o pássaro dizia: “Tenho que ir”.
 A menina chorava porque amava o pássaro e não queria que ele partisse.
 “Menina”, disse-lhe o pássaro, “aprenda o que vou lhe ensinar:
 eu só sou encantado por causa da ausência. É na ausência que a saudade vive.
 E a saudade é um perfume que torna encantados todos os que os sentem.
 Quem tem saudades esta amando.
Tenho que partir para que a saudade exista e para que continue a ama-la
 e você continue a me amar...” E partia.
A menina, sofrendo a dor da saudade maquinou um plano:
 quando o pássaro voltou e lhe contou estórias e foi dormir,
ela o prendeu em uma gaiola de prata, dizendo:
“Agora ele será meu para sempre.” Mas não foi isso que aconteceu.
 O pássaro, sem poder voar, perdeu as cores, perdeu o brilho, perdeu a alegria,
 não tinha mais estórias para contar. E o amor acabou.
Levou um tempo para que a menina percebesse
 que ela não amava aquele pássaro engaiolado.
 O pássaro que ela amava era o pássaro que voava livre
 e voltava quando queria e ela soltou o pássaro que voou para longe.”


Rubem Alves in A menina e o pássaro encantado

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